Novos Tempos do Cristianismo

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Categoria: Artigos

18.08.09

NOBRE FILHA DE HEBREUS

categorias: Artigos

   Não é a cada século que aparece uma personalidade marcante do quilate de Edith Stein. Ela foi uma mulher que se distinguiu em áreas, que requerem capacidades muito acima da média. Nasceu em fins do século 19, entre o povo judeu, ao qual ficou fiel até o fim de sua vida. O clímax de sua existência transcorreu nas quatro primeiras décadas do século 20. Teve uma vida realmente agitada, e cheia de emoções fortes. Os vagalhões que se arremeteram contra a sua trajetória, derrubariam a maior parte das personalidades. Foi uma mulher para a qual se poderia repetir a expressão aplicada a São Paulo: “um vaso de eleição” do Senhor. Graças à sua prendada inteligência, descobriu seus pendores para a Filosofia. Desdobrou nela todas as suas capacidades, alcançando alto prestígio intelectual, a ponto de se tornar procurada Mestra em várias áreas de pensamento, por toda a Europa. Os livros que escreveu atingiram notável profundidade. Mergulhou, com convicção e como grande líder, no movimento feminista.

   Mas foi justamente na Filosofia que o verdadeiro Mestre a esperava. Por causa de pensadores diversos, tornou-se atéia. Virou uma alma seca. Por ter dentro de si o desejo de busca da verdade, embrenhou-se em estudos, que a colocaram frente a frente com grandes filósofos católicos. A personalidade que a chocou de vez, foi Santa Teresa de Ávila. Depois de muito estudar, e de tudo analisar com minúcias, chegou à conclusão de que a resposta integral para a humanidade era a pessoa de Jesus, como está proposta na Igreja Católica. Ao manifestar à sua mãe a resolução de se tornar católica, houve por parte desta uma profunda mágoa, e até a tentativa de dissuasão. Mas ela não só se fez batizar, como resolveu tornar-se Irmã Carmelita. Entrou no claustro, para viver na intimidade com Cristo. Mas o nazismo, no auge de sua loucura, logo a descobriu. Tentando sair fora da perseguição, transferiu-se para um Carmelo da Holanda, onde os nazistas não tardaram em encontrá-la. Para não prolongar a conversa: foi morta covardemente pelos carrascos de Hitler. Deixou-nos um precioso diário, que deixa transparecer a grandeza de sua fé. Por causa de sua singular santidade, João Paulo II a declarou Santa da Igreja Católica. Não tenho a menor dúvida em exclamar: Santa Edith Stein, rogai por nós.

DIFICULDADES À VISTA

categorias: Artigos

   Nada mais normal do que desejar estabelecer boas regras de convivência entre o Estado Brasileiro e a Santa Sé. A Igreja Católica, após 5 séculos de presença – e presença que marcou a nossa cultura – sente necessidade de fixar regras estáveis de convívio civil. É para “dirigir os nossos passos no caminho da paz” ( Lc 1, 79). Trata-se de um acordo, em que o mais forte (o Estado) se obriga a reconhecer certas prerrogativas do mais fraco (Igreja). É bom lembrar que a Igreja não quer privilégios – o que numa democracia seria odioso – mas sim, determinações confiáveis e previsíveis de comportamentos jurídicos. Esse acordo foi montado, por longos anos, por eminentes juristas do Itamaraty e profissionais escolhidos pela Igreja. Foi tudo minuciosamente discutido. Todos os itens, salvo algumas pequenas exceções, já estão em vigor, na prática. E uma vez aprovado pelo Congresso Nacional, esse acordo poderá ser regulamentado em minúcias. Cito como exemplo, o estabelecimento de detalhes para se cumprir o direito do ensino religioso.

   Ocorre que estão aparecendo duas dificuldades na aprovação desse instrumento de boa convivência. A primeira provém de parlamentares evangélicos. Estes estão encorpando a voz, porque supõem que é uma ocasião para um tratamento paternalista do poder público. Não queremos um tratado exclusivo. Todas as entidades religiosas podem celebrar acordos particulares, da mesma forma. Só lhes desejo que não levem, como nós, 509 anos para conseguir alguma coisa. O segundo grupo, bastante aguerrido, é o dos que se batem pela laicidade do poder público. Estão certos quando advogam que o Estado deve ser laico. Deve ser mesmo. Mas essa qualidade justamente reconhece que as convicções religiosas dos cidadãos devem ser reconhecidas. O Estado deve protege-las. Parece que o sangue da revolução francesa – sangue velho, diga-se - ainda circula em suas veias. Mas a própria França tem acordo com a Santa Sé, como também muitos países muçulmanos, e a maioria dos países americanos e africanos. E não vêem nisso nada de errado. Será que 500 anos de presença benéfica da Igreja Católica, no Brasil, não vai pesar nada na hora da votação desse acordo da esperança?

03.08.09

ABUSOS PERSISTEM

categorias: Artigos

   Durante a sessão do Concílio Vaticano II, em outubro de 1963, a maioria dos Padres novos (entre os quais eu me encontrava), procurou aplicar na prática o que se aprovava em Roma. Nós líamos no jornal hoje, o que tinha sido votado pelos Bispos, a respeito da Liturgia, e amanhã já aplicávamos. Era uma grande falta de preparo disciplinar. Não esperávamos a aprovação do Papa , nem a promulgação da “Sacrossanctum Concilium”, nem muito menos a sua regulamentação. Posso, no entanto, garantir que fazíamos isso, não movidos pela má fé. Naquela época vigia uma espécie de “vácuo” de regras claras. Em assuntos de Liturgia, tudo se considerava em fase de experiência. Quase todo celebrante se considerava habilitado para inovar, criar, mudar e acrescentar. Não sem razão, muitos fiéis manifestavam o seu descontentamento, e a sua estranheza. Depois de melhores estudos, aos poucos a disciplina tornou a vigorar. Descobrimos, sim, que a criatividade é muito importante, para haver boas celebrações. Mas para o bem dos fiéis, foi preciso reconhecer que as regras, os ritos estabelecidos, precisavam ser rigorosamente observados. O rito não pode ficar à mercê da vontade do celebrante, sobretudo quando se trata da Missa.

   Mas resquícios daquela indisciplina pós-conciliar, ainda sobrevivem. Apesar de o Concílio ter determinado que “regular a sagrada Liturgia compete unicamente à autoridade da Igreja, a qual reside na Sé Apostólica...” (SC 22, § 1), muitos ainda ultrapassam sua própria autoridade. Fazem Leigos rezarem partes da Oração Eucarística (não entenderam que as Anáforas são uma oração presidencial); dizem “abençoe-nos o Deus todo-poderoso” ( não sabem que fazem as vezes de Cristo cabeça, que em seu nome abençoa os fiéis); fazem shows de pirotecnia que não fazem parte da celebração (em vez de celebrar a Cristo, celebram-se a si mesmos); não usam o missal, “inventando” orações de sua própria lavra (esquecem-se até de invocar o Espírito Santo); não usam as vestes litúrgicas prescritas pela Igreja (desprezam o que pede o Papa, mas obrigam os fiéis a aceitar suas invenções); após a consagração interrompem a Missa para abrir espaço à adoração ao SSmo (esta só tem lugar fora da celebração). É muito melhor celebrar como pede a Santa Igreja. Só assim está garantida a verdadeira piedade, o sagrado, enfim o mistério divino.

29.07.09

FOI IMPORTANTE LEMBRAR

categorias: Artigos

   A encíclica do Papa intelectual, denominada “Caritas in Veritate” (Caridade na Verdade), é profundamente inquietadora. É até civilizadamente provocadora. É um escrito, que segue a esteira das grandes manifestações sociais dos Papas, notadamente de Paulo VI na sua “Populorum Progressio” (40 anos). Ele provoca o mundo moderno a dar um passo para frente. Dizer que essas encíclicas sociais nada dizem para o mundo de hoje, é uma afirmação espantosa. Sabe-se que, na surdina, os países de maioria protestante, e os países de corte civilizado do oriente, são os que mais adequaram sua realidade social aos reclamos dessas encíclicas. Desta vez Ratzinger, como um homem da sua época, adentra os problemas de uma nova ordem política e financeira mundial, pede alterações no modelo econômico vigente, sugere a reforma da ONU, exige vigilância sobre o andamento da economia e do desarmamento, requer a segurança alimentar e o compromisso com a paz, com o meio ambiente e com as migrações humanas. Conclama o mundo a realizar, não só o progresso dos povos, mas a projetar um desenvolvimento integral.

   Ao falar desse pleno desenvolvimento, Bento XVI não se furta a lembrar uma verdade básica. Este princípio se encontra por demais escamoteado pela modernidade, que se quer entender como uma sociedade laica, preferentemente enquadrada no ambiente estreito da intra-mundanidade. Trata-se do porão do “ici-bas”, que impede à humanidade de ter uma visão completa da realidade humana. “Eles serão o meu povo e eu serei o seu Deus” (Jer 24, 7). Como um bom pai, mostra que Jesus, através de sua vida e ressurreição, é a pessoa que melhor testemunhou o vínculo intrínseco, existente entre a vida terrena e a destinação eterna do nosso ser. Mostra que o desenvolvimento integral, permitindo a presença do Criador, é a motivação verdadeira que impulsiona para o avanço da pessoa e de toda a humanidade. Esta é a força propulsora por excelência, para aprender o valor do bem comum. “Sem Deus o homem não sabe para onde ir, e não consegue sequer compreender quem seja”(CiV nº 78).

27.07.09

O TRABALHO PODE VISAR LUCRO?

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   Quando João Paulo II escreveu a encíclica social CENTESIMUS ANNUS, em 1992, um clérigo me falou amargurado: “nunca mais a Igreja vai escrever uma encíclica social”. Por que tamanha decepção? É que ele pessoalmente queria a solução socialista, matriz de uma verdadeira justiça social, segundo entendia. E nesta encíclica o Pontífice fazia clara opção pela economia de mercado (com restrições), desclassificando a economia estatal, que quer marcar todos os preços e determinar o que deve ser produzido (socialismo). Por que João Paulo II fez essa escolha, seguindo Leão XIII? Porque, se a economia de mercado produz injustiças, deixando muitas pessoas à margem do progresso, o socialismo eleva as injustiças ao quadrado. Ele torna a vida econômica uma camisa de força insuportável, e se torna malfeitor da humanidade, por não respeitar em grau mínimo a liberdade humana. O clérigo citado – cheio de nobres ideais – achava que as encíclicas anteriores, por condenarem a crueldade do capitalismo selvagem, eram a favor do socialismo. O que é um erro de tamanho amazônico.

   Agora vem Bento XVI, e nesta encíclica CARITAS IN VERITATE, confirma esse ensinamento tradicional (nº 35). Em outras palavras, ele ensina que as transações financeiras precisam seguir as leis do mercado, entre as quais está presente a lei da oferta e da procura, e a busca do lucro justo. Aos olhos de muitos idealistas, o lucro seria uma busca perversa em si. Seria comportamento satânico. Mas não. Segundo o Pontífice Romano entende, o lucro é um agente motivador para os empreendimentos econômicos. Nos corações mais nobres podem se sobrepor outros motivos mais sublimes: o amor à humanidade, o progresso das comunidades, a busca do Reino de Deus. Se existe manifestação a favor da economia de mercado, no pensamento papal, corre paralela a necessidade de o Estado coibir os abusos do lucro desenfreado. A própria globalização é aceita como fato positivo, desde que não crie camadas sociais à margem do progresso, e que seus benefícios se estendam também à educação, à saúde, à segurança...”O bom pai é aquele que tira do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13, 52).