Novos Tempos do Cristianismo

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Arquivo de: Julho 2009

29.07.09

FOI IMPORTANTE LEMBRAR

categorias: Artigos

   A encíclica do Papa intelectual, denominada “Caritas in Veritate” (Caridade na Verdade), é profundamente inquietadora. É até civilizadamente provocadora. É um escrito, que segue a esteira das grandes manifestações sociais dos Papas, notadamente de Paulo VI na sua “Populorum Progressio” (40 anos). Ele provoca o mundo moderno a dar um passo para frente. Dizer que essas encíclicas sociais nada dizem para o mundo de hoje, é uma afirmação espantosa. Sabe-se que, na surdina, os países de maioria protestante, e os países de corte civilizado do oriente, são os que mais adequaram sua realidade social aos reclamos dessas encíclicas. Desta vez Ratzinger, como um homem da sua época, adentra os problemas de uma nova ordem política e financeira mundial, pede alterações no modelo econômico vigente, sugere a reforma da ONU, exige vigilância sobre o andamento da economia e do desarmamento, requer a segurança alimentar e o compromisso com a paz, com o meio ambiente e com as migrações humanas. Conclama o mundo a realizar, não só o progresso dos povos, mas a projetar um desenvolvimento integral.

   Ao falar desse pleno desenvolvimento, Bento XVI não se furta a lembrar uma verdade básica. Este princípio se encontra por demais escamoteado pela modernidade, que se quer entender como uma sociedade laica, preferentemente enquadrada no ambiente estreito da intra-mundanidade. Trata-se do porão do “ici-bas”, que impede à humanidade de ter uma visão completa da realidade humana. “Eles serão o meu povo e eu serei o seu Deus” (Jer 24, 7). Como um bom pai, mostra que Jesus, através de sua vida e ressurreição, é a pessoa que melhor testemunhou o vínculo intrínseco, existente entre a vida terrena e a destinação eterna do nosso ser. Mostra que o desenvolvimento integral, permitindo a presença do Criador, é a motivação verdadeira que impulsiona para o avanço da pessoa e de toda a humanidade. Esta é a força propulsora por excelência, para aprender o valor do bem comum. “Sem Deus o homem não sabe para onde ir, e não consegue sequer compreender quem seja”(CiV nº 78).

27.07.09

O TRABALHO PODE VISAR LUCRO?

categorias: Artigos

   Quando João Paulo II escreveu a encíclica social CENTESIMUS ANNUS, em 1992, um clérigo me falou amargurado: “nunca mais a Igreja vai escrever uma encíclica social”. Por que tamanha decepção? É que ele pessoalmente queria a solução socialista, matriz de uma verdadeira justiça social, segundo entendia. E nesta encíclica o Pontífice fazia clara opção pela economia de mercado (com restrições), desclassificando a economia estatal, que quer marcar todos os preços e determinar o que deve ser produzido (socialismo). Por que João Paulo II fez essa escolha, seguindo Leão XIII? Porque, se a economia de mercado produz injustiças, deixando muitas pessoas à margem do progresso, o socialismo eleva as injustiças ao quadrado. Ele torna a vida econômica uma camisa de força insuportável, e se torna malfeitor da humanidade, por não respeitar em grau mínimo a liberdade humana. O clérigo citado – cheio de nobres ideais – achava que as encíclicas anteriores, por condenarem a crueldade do capitalismo selvagem, eram a favor do socialismo. O que é um erro de tamanho amazônico.

   Agora vem Bento XVI, e nesta encíclica CARITAS IN VERITATE, confirma esse ensinamento tradicional (nº 35). Em outras palavras, ele ensina que as transações financeiras precisam seguir as leis do mercado, entre as quais está presente a lei da oferta e da procura, e a busca do lucro justo. Aos olhos de muitos idealistas, o lucro seria uma busca perversa em si. Seria comportamento satânico. Mas não. Segundo o Pontífice Romano entende, o lucro é um agente motivador para os empreendimentos econômicos. Nos corações mais nobres podem se sobrepor outros motivos mais sublimes: o amor à humanidade, o progresso das comunidades, a busca do Reino de Deus. Se existe manifestação a favor da economia de mercado, no pensamento papal, corre paralela a necessidade de o Estado coibir os abusos do lucro desenfreado. A própria globalização é aceita como fato positivo, desde que não crie camadas sociais à margem do progresso, e que seus benefícios se estendam também à educação, à saúde, à segurança...”O bom pai é aquele que tira do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13, 52).

13.07.09

SÁBADO INGLÊS OU DIA DO SENHOR?

categorias: Artigos

   É pouco animador querer “gabar o seu galho”, mas vou aqui relatar minha experiência pessoal. Os estragos ou melhorias impostas pelo tempo, facilmente podem ser descritos, mas pouco modificados. Quem acha que é arcaico colocar pára-lama em bicicleta, deve conformar-se com a lama em cima da roupa, em dia de chuva. A extravagância da bicicleta sem defesa contra a lama vem mostrar que nem tudo o que é moderno é melhor. Não vou fazer apologia do que testemunhei outrora. Mas a cada década da minha vida, vi os costumes ir se modificando, sem ninguém ter planejado. Assim, outrora, no sábado de manhã todos trabalhavam normalmente. Mas à tarde tudo virava uma grande véspera do domingo. Se durante a semana o banho não era muito apreciado, nas tardes de sábado toda a família passava pela “ducha”. Depois disso os homens faziam a barba (esquecida durante toda a semana). As moças usavam seus belos vestidos. Muitos homens dirigiam-se ao clube para jogar baralho, ou disputavam partidas de bolão (boliche). As mulheres também tinham a sua concentração. O domingo de manhã ganhava vida, pois a maioria freqüentava sua comunidade religiosa para a missa, ou para o culto. Depois disso o domingo continuava: havia o almoço festivo, com pernil. E à tarde as famílias se visitavam alegremente, numa tonalidade despreocupada e repleta de felicidade. Homens, mulheres e crianças conviviam todos juntos, sem pressa. Era o eterno “ primeiro dia da semana” (1 Cor 16, 2).

   Hoje em dia, sem menosprezar o que se faz, vejo que o enfoque mudou. Não se deseja mais a ninguém um “bom domingo”, mas um “bom fim de semana”. Tudo começa às sextas feiras à tarde, quando as rodovias se enchem de caminhões. Todo mundo quer estar em casa no sábado. Neste não há mais trabalho. Nele a alegria é grande. Alguns até vão à missa, ou a deixam para o domingo. No domingo de manhã é hora para dar uma esticada no sono. O almoço ainda continua sendo importante. Depois se busca um bom jogo de futebol, ou já se preparam os caminhões para disparar para os grandes centros urbanos. E assim acabou o domingo. Hoje as atenções se voltam para a mística do sábado inglês. A grande pedida agora é abrir o comércio dominical, pois, dizem, gera muitos empregos.

06.07.09

POR QUE EXIBIÇÕES RELIGIOSAS

categorias: Artigos

   Entre os esportistas, sobretudo entre jogadores de futebol, tem aparecido diante dos nossos olhos, exibições religiosas desses profissionais. Lançam-se beijos para Jesus, usam-se camisetas com inscrições de cunho pentecostal (por que em inglês?), há genuflexões, fazem-se rodas de oração vocal, desenrolam-se faixas com letreiros, apontam-se os indicadores para o espaço celeste. Coisas tais vimos, repetidas, no encerramento da Copa das Confederações, na África do Sul. Há respeito para com os adeptos de outras religiões? Por que fariam isso? Vou tentar algumas explicações. Cada leitor vai escolher a que lhe parecer mais próxima da verdade.

1 –Tais atletas fariam exibições de religiosidade superior, considerando-se acima das reles superstições alheias, ou além de expressões religiosas infantis? Assim ensinariam que a expressão religiosa válida seria só a de cunho bíblico. A democracia sente-se bem com isso?
2 – Seria demonstração de que o Pai Celeste tem filhos privilegiados (os do grupo), aos quais concede generosamente todas as vitórias, e os demais deveriam amargar as derrotas?
3 – Seria uma dura afirmação de que Jesus é exclusividade do grupo, e que os resultados positivos nasceram da iniciativa deles, e que portanto, eles tem a capacidade de manipular a vontade divina?
4 – Poderia ser um lance de proselitismo, em favor de seu grupo religioso, uma vez que os meios de comunicação fazem uma cobertura gratuita e universal? (Chegam a privilegiar seus símbolos sobre o esporte).
5 - Estariam procurando demonstrar que os verdadeiros cavalheiros do esporte, os grandes jogadores, os mais disciplinados, e as peças mais decisivas do jogo estão dentro de seu grupo, restando aos demais se considerarem de segunda categoria? Não seria irreal?
O caro leitor saberá entender que várias dessas suposições são fracas. Mas outras tem apoio na realidade. Até poderiam ser multiplicadas. Gostaria de dizer que nunca devemos pedir ao Pai Justo, que derrote os nossos adversários, e que nos dê uma vitória retumbante. Todos são seus filhos. O que podemos pedir é que os esforços, a preparação, a inteligência e o bom planejamento sejam recompensados. E que vença o melhor. “Vosso Pai faz nascer seu sol sobre justos e injustos” (Mt 5, 45).