Novos Tempos do Cristianismo

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Terra Blog

Arquivo de: Fevereiro 2009

27.02.09

DE VOLTA À MAGIA

categorias: Artigos

   Visionário é alguém que baseia seus objetivos em cima de supostas revelações. É alguém que argumenta que teve visões, e nelas lhe foi desvendado este e aquele segredo. Jesus foi o oposto de um visionário. As suas parábolas e ensinamentos pegam o chão da realidade. Nunca falou a ninguém: “em oração durante esta noite, tive uma visão, na qual me foi revelado que todos devem amar o seu próximo”. Nele o racional tinha forte presença, e a vida era encarada dentro de um sadio realismo. Entre nós, apesar de estarmos vivendo numa época de positivismo (sem a lógica da metafísica), e estarmos voltados para os fenômenos “científicos”, existe uma ampla camada da população que acredita em forças mágicas e misteriosas. E é claro, desacredita no resultado do esforço pessoal, e muito menos se abre para os auxílios da graça do Pai Celeste. É um apelo para entregar-se ao irracional, e desculpar-se da falta de ideal. É crer em forças ocultas. É adorar deuses falsos, porque admite que existem realidades que escapam ao poder de Deus. É uma idolatria. “Tendes visões inúteis e adivinhações erradas” (Ez 13, 7). Vamos apreciar dois casos exemplares.

   A força dos números. Se alguém nasce no dia tal, é sabido que ele vai ser um azarado, um assassino, ou um intelectual, ou uma pessoa caridosa. Por que não se escolheu então o dia da concepção? É tudo fantasia, pura imaginação. Analisam-se artistas, escritores, políticos, e se quer mostrar por números (espertamente escolhidos), que isso tudo foi destino. Tudo já estava embutido nestes e naqueles números. Não há mais espaço para o livre arbítrio, e muito menos para a educação, provinda dos pais ou da escola. Esses pouca influência tem, pois o acaso dos números tudo já determinou. Então, o número da besta tem ibope total...Outra extravagância na categoria das bobagens é a força do nome. Acha-se que se alguém recebeu o nome de Augusto, vai ser uma pessoa dominadora; se foi chamada Aurora, será uma mulher alegre, que desperta a esperança. Cada pessoa poderia ser analisada a partir do significado de seu nome. E essa seria a sua sina. Os nomes, sem dúvida, podem expressar detalhes: Nonato, Rosa. Mas, em vez de revelarem o destino, podem revelar programas e ideais. Longe de nós essa ditadura do significado do nome: Urbano; Regina. Nunca devemos abdicar de tomar conta do nosso futuro. Nós, com autoconfiança, e a ajuda do Pai Celeste, desenharemos o nosso futuro. A magia é o refúgio de quem nada decide.

20.02.09

A BÍBLIA, UMA GRANDE REVELAÇÃO

categorias: Artigos

   Para quem tem mente aberta, o grande Ser - o único necessário - abre espaço de comunicação com os seres racionais. Mas não na ordem dos sentidos. E sim, no nível da capacidade intelectual, e das intuições. Por isso, nenhum animal pratica atos religiosos. A sua comunicação restringe-se ao “ici-bas” (ao mundo visível e imediato). Mas os seres inteligentes podem tornar-se interlocutores do Criador amoroso, através das maravilhas da natureza, sempre a serem descobertas como surpresas sem fim. Os seres racionais também podem alcançar a revelação dos segredos divinos, através dos acontecimentos da história. Como também pelos acontecimentos, não de menor monta, da nossa história pessoal. Basta ter capacidade de observação. “Que o Pai ilumine os olhos da vossa mente” (Hb 1, 18).

   No entanto, a nossa fé demonstra, com argumentos indestrutíveis, que a fina flor da manifestação divina, àqueles que são “sua imagem e semelhança” (Gen 1, 26), se dá através das páginas incomparáveis da Sagrada Escritura. Para nós cristãos, podem existir bilhões de livros. Mas só a um denominamos o Livro. Porque nele o Cristo nos fala, como Palavra revelada do Pai. Tais escritos contém a inspiração do Espírito Santo. Mesmo que tenham um invólucro muito humano, manifestam os principais segredos divinos. E o que é importante para nós, expressam o que esse Ser amoroso espera de nós: a aceitação de seu Filho, Mestre e Salvador. Esse tesouro foi entregue por Jesus à sua Igreja, que o deve destinar a toda a humanidade. Pois bem. Hoje a Bíblia é o livro mais comentado e estudado do mundo. Os estudos críticos e históricos destrincham página por página, e linha por linha. Isso é muito bom. Mas é apenas a primeira fase de sua leitura. Por ora, não vou me referir a duas chaves fundamentais de interpretação, que é a verdade sobre Cristo e sua Igreja. Quem não enxerga tais verdades nas páginas sagradas, nada entendeu das Escrituras. Mas me refiro à fase essencial da leitura: é a procura do seu sentido espiritual (ou alegórico). Descubro o que Deus quer falar para mim. Devo entrar em oração e descobrir, diante do Senhor, qual é a revelação que está reservada para mim e minha comunidade. “Fazei tudo o que Ele vos disser”(Mt 23, 3).

16.02.09

AINDA NÃO HOUVE RESPOSTA

categorias: Artigos

   Por ocasião do jubileu do ano 2000, o então Papa João Paulo II, num gesto de muito realismo e de sinceridade, pediu perdão ao mundo, por inúmeras atitudes reprováveis cometidas pelos filhos da Igreja. Ele se referia aos vinte séculos de cristianismo. Tal pedido de perdão abrangia a infeliz iniciativa da Inquisição, o acirramento de ódios das Cruzadas, o julgamento de Galileu, entre outros pontos de permanente fricção com a mentalidade moderna. O máximo que se pode fazer nestes acontecimentos históricos, é contar com a benevolência pública, disposta ao perdão, e evitar que esses fatos se repitam para o futuro. O pedido de perdão se baseou em dois pressupostos. O primeiro é que a mentalidade daquela época era outra. Havia outros contextos históricos, outra filosofia de vida, outro horizonte de julgamento. Os atores daqueles tempos agiam de maneira errada, pensando que estavam acertando em cheio. O segundo pressuposto é este: o cristianismo e o poder civil da época ainda não haviam assimilado o alcance do mandamento da caridade, ensinado por Jesus. O que importa agora é crescer no entendimento desse mandato e praticá-lo melhor. “Senhor, perdoaste a culpa do teu povo” (Sl 85, 3).

   Depois desse gesto de João Paulo II houve alguns momentos de silêncio, em todo o mundo. Parecia que o solene pedido do sucessor de Pedro, tinha se aninhado nos corações. Por um curto período as acusações ficaram suspensas. Mas atualmente tudo recomeçou. Parece até que a modernidade se esqueceu que tem pés de barro. Joga, com extrema autoridade, culpas na Igreja, inexistentes. Há poucos dias certo professor universitário – sabendo que havia católicos praticantes na sala de aula – acusou a Igreja Católica de ter feito “o maior derramamento de sangue da história”. Referia-se ao número incerto de vítimas da Inquisição. Não lembrou o caro mestre que só o nazismo (filosofia atéia), sacrificou mais de 60 milhões de pessoas na segunda guerra mundial. E a mais perversa de todas as filosofias, o comunismo (ateísmo crasso), imolou à ideologia mais de 50 milhões na Rússia, e outros tantos na China. Por favor, vamos trazer para o meio os assuntos de hoje, e não os de outrora, fora de nossa responsabilidade. Todos aguardamos a generosidade do perdão.

09.02.09

CERTAS ESCOLAS TEOLÓGICAS...

categorias: Artigos

Será que pode existir uma “teologia neutra”? Pode haver uma Faculdade tão “light” que agrade a evangélicos, a católicos e até a agnósticos? No nosso país se quer fazer crer isso. Criaram-se muitas Teologias, aprovadas pelo MEC, munidas de bons recursos, quase sempre fora dos quadros da nossa Igreja. A propaganda, para acalmar os escrúpulos de católicos, vai fazendo afirmações tranqüilizadoras. “Somos todos cristãos, e precisamos encontrar uma Teologia neutra”. O professor ingênuo, e de espírito largo, não é fácil de encontrar. A dose de idéias estranhas vem muito bem embalada, e costuma fazer mal a longo prazo. A menos que o aluno seja de uma capacidade excepcional, a ponto de pôr em risco o prestígio de seus mestres, as defesas vão caindo. Eu acho impossível haver um estudo teológico inocente. Todos tem seu método, suas correntes, e sobretudo seus objetivos (que numa organização forte ficam velados).

Pisando com cautela – trata-se de campo minado - abordarei, sem peitar nenhum pensamento, apenas o vasto campo da Bíblia. Desejo comprovar, na esteira do Concílio (mais exatamente pela Dei Verbum), que na vida eclesial temos um princípio irrenunciável de procedimento: a Igreja é o único sujeito definitivo a interpretar a Escritura. Ela, por vontade de Cristo, respeita a Tradição, que é regra exegética por excelência. Nunca podemos interpretar a Bíblia contra a Igreja. Exegeses, por mais geniais que pareçam ser, que se afastam do “depósito da fé”, só empobrecem as Escrituras, ou até as anulam. Quando é que vai haver unidade entre católicos e outros amantes da Palavra, lendo a mesma Bíblia? Nunca. É que para nós “o encargo de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita, ou contida na Tradição, foi confiado só ao magistério vivo da Igreja” (DV nº 10). Essa é a nossa praxe de fé, seguida pelos verdadeiros mestres dos ensinamentos de Jesus. Agora, é bem verdade. Se existe esse quadro confuso, de haver católicos buscando faculdades de teologia, reconhecidas oficialmente, fora dos nossos âmbitos, em grande parte é culpa nossa. Nós temos poucas escolas de Teologia, aprovadas pelo governo, que dão direito a diplomas oficiais. No mundo moderno costumamos chegar atrasados em tudo...

Dom Aloísio Roque Oppermann scj – Arcebispo de Uberaba, MG

02.02.09

O UNIVERSO CONSCIENTE

categorias: Artigos

Antes de tudo precisamos dizer que o cosmos e a pessoa divina, em quem cremos com convicção, são seres distintos. Não há a mínima chance de os seres contingentes (criaturas) fazerem parte do Criador. Os astros, as leis da natureza, os elétrons, são seres que existem fora de Deus. Afirmar o contrário seria panteísmo, linha filosófica bastante comum na história da humanidade. Por isso, estudar as leis da Física, de per si, não é um ato religioso. Não existe matemática cristã. O homem se aproxima de dados objetivos da natureza, e os procura dissecar e compor. A curiosidade faz a inteligência humana devassar os segredos que fazem os seres existir e funcionar. O homem quer conhecer a natureza de todas as coisas. Quer saber o como, e o por quê. É como fez Einstein, ao querer saber por que a seiva das plantas sobe pelos vasos de uma árvore, sem haver máquina para impulsionar para cima. Isso não foi um ato de religião, e muito menos uma expressão de ateísmo. Assim agindo, ele descobriu o funcionamento dos vasos capilares. Nós humanos devemos considerar todos os seres perceptíveis como distintos do Ser Divino. Embora sejam contingentes, eles tem existência própria. E como tais devem ser avaliados.

Por estar no centro do cosmos, os humanos devem considerar todos os seres como de existência objetiva, observando leis adequadas para a sua dissecação e aproveitamento. Diante do quadro espetacular da natureza deve descobrir que tudo é para ele, em última instância. Por isso deve se desprender dos seus sentidos e de seus instrumentos, para alçar a inteligência e suas emoções para um nível que ultrapassa todo o mundo perceptível. Sendo leal consigo mesmo, saberá reconhecer que ele não é o criador de leis da natureza, mas apenas seu modesto descobridor. Alguém, maior do que ele, o precedeu e tudo dispôs com infinita sabedoria. Para se elevar a esse patamar, precisa acolher as regras intelectuais da metafísica (aceitar a existência de fenômenos além da observação positiva). Mas precisa sobretudo abrir-se à fé, quando o homo sapiens se dirige ao Ser Supremo, reconhecendo nele a pessoa amorosa que engendrou todas as maravilhas do universo. “Pai, santificado seja o vosso nome” (Mt 6, 9).
Dom Aloísio Roque Oppermann scj – Arcebispo de Uberaba, MG